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Mensagem  Duduca em Seg Maio 19, 2008 3:00 pm

Pessoal,

A idéia é discutirmos alguns assuntos interessantes do livro do Ed Rene chamado Outra Espiritualidade. Minha proposta e postar aqui cada capítulo (sem compromisso de periodicidade), para podermos debater cada assunto, principalmente pensando em nossa realidade e nossa igreja.

Segue a apresentação do livro que já é bem apimentada.

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A expressão “outra espiritualidade” sugere a pergunta: “outra em relação a quê?”. Isto é, que espiritualidade está sendo abandonada para que em seu lugar apareça “outra”? No meu caso é simples: estou abandonando a espiritualidade de senso comum evangélico e saindo em busca da espiritualidade do senso comum da tradição cristã.
Apresso-me em explicar. Considero “senso comum” uma forma simples de me referir ao fato de que, apesar da enorme diversidade a respeito das características que identificam o ser evangélico, há um núcleo que resume como este segmento religioso da sociedade articula sua crença e seu modus vivendi. Ao escolher o senso comum, admito que a “outra espiritualidade” que busco não é uma novidade, mas um resgate dos aspectos essenciais à fé cristã conforme se estabeleceram nestes mais de dois mil anos de história.
Deixando de lado o rigor acadêmico e científico, que não cabe na proposta deste livro, chamo “senso comum da fé evangélica” os conteúdos articulados na face mais visível dessa tradição religiosa, notadamente através da mídia impressa, radiofônica e televisiva. São os autores e comunicadores de massa que fazem a cabeça dos fiéis e, aos poucos, vão definindo, consciente e inconscientemente, voluntária e involuntariamente, um núcleo de crenças determinantes de uma cosmovisão e, por conseqüência, um jeito de ser no mundo. A partir de determinado ponto, passa a existir uma cultura autônoma, independente dos conteúdos mais elaborados dos teóricos. Essa cultura autônoma é apropriada pelo povo, e a partir de então é deflagrado um processo de desenvolvimento de crenças e costumes que vai se distanciando cada vez mais da proposta original.
Não tenho dúvidas de que esse fenômeno aconteceu na chamada “Igreja evangélica”, e que o ser evangélico, conforme compreendido hoje pela sociedade brasileira – e até mesmo por muitos evangélicos –, está absolutamente distante dos conteúdos originais da fé cristã. Evidentemente, é pretensioso aquele que afirma conhecer “os conteúdos originais da fé cristã”, pois toda teologia é interpretação, isto é, tudo quanto os cristãos propagam são versões do conteúdo original. O que se exige é a avaliação mínima dos conteúdos atuais relativamente àqueles que foram, desde períodos mais remotos, divulgados como constitutivos da fé cristã. Tenho a firma convicção de que o cristianismo dos evangélicos contemporâneos é absolutamente distinto do cristianismo dos primeiros cristãos e das tradições teológicas mais consistentes da história da Igreja.
Aliás, é muito triste o fato de grande parte dos novos líderes evangélicos e dos novos convertidos à fé evangélica desconhecer a tradição teológica da história da Igreja, seus expoentes mais respeitados, suas fundamentações filosóficas, seus embates com os espíritos de sua época, suas argumentações apologéticas e, principalmente, sua sangue vertido em defesa da fé. Os neo-evangélicos estão ocupados demais em construir uma experiência religiosa que os satisfaça no imediato, e não se ocupam com as aproximações da verdade, uma vez que vivem o pragmatismo de quem se ocupa antes em fazer Deus funcionar do que em ser íntimo dele.
Fui tomando consciência disso aos poucos e, de certa forma, construindo meu pensamento a respeito de “outro Deus e outra espiritualidade”passo a passo, um insight de cada vez, como o pão que nos chega à alma toda manhã, caindo do céu a cada dia. A coluna “Diálogo”, publicada mensalmente na revista Eclésia, foi um dos fóruns privilegiados em que tentei não apenas articular minha fé, abrindo-me aos seus argumentos, questionamentos e encaminhamentos. Sou grato a Deus por todos e cada um dos meus leitores, que ao longo de mais de dez anos caminharam comigo, pacientes, intercessores, críticos e encorajadores. Sou igualmente grato a Deus pelos amigos Omar de Souza e Carlos Fernandes, que me estimularam, apoiaram e sempre esperaram pacientemente o parto mensal de um novo artigo, além de corrigir os textos, sugerindo mudanças e agregando valor, honrando a dura e pouco valorizada rotina dos editores de periódicos.
Os artigos foram mantidos conforme originalmente escritos. Fosse escrevê-los hoje, provavelmente não diria algumas coisas que disse, e diria outras que deixei de dizer. Mas optei por não retocar o que foi dito, pois não me arrependo de tê-lo feito. Não me envergonho de ter sido quem fui. E posso dizer que, pela graça de Deus, sou o que sou. Aliás, pela graça de Deus sou o que sou porque também pela graça fui o que fui.
Você tem em mãos, portanto, minhas verdades, de ontem e de hoje. Espero que guardem um mínimo de coerência, mas admito a possibilidade de algum desencontro. Depois de alguns anos, nossas verdades tendem a ser provisórias. Considerando que o oposto da fé não é dúvida, mas o medo, não tenho medo de duvidar, revisar, repensar, refazer. Aquele menino cheio de certezas que vivia dentro de mim deu lugar a um homem um pouco mais maduro, que admite, como Riobaldo Tartarana: “Eu quase de nada não sei, mas desconfio de muita coisa”.
Uma coletânea de textos publicados ao longo do tempo se caracteriza muito mais como estrada que destino. Desejo a todos uma boa viagem.

Duduca
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